A IMPORTÂNCIA DOS Ácidos Graxos de Cadeia Longa NO LEITE HUMANO E em Fórmulas Infantis

18/01/2017

Publicado em Revista Óleos e Gorduras Edição Ano 2/ nº 10/ Jul-Ago 2016

Por Dra. Roberta Claro da Silva

Utah State University

  1. INTRODUÇÃO
Sob os pontos de vista nutricional, imunológico e de segurança alimentar, o leite humano é considerado o melhor alimento para crianças na primeira fase de sua vida. O leite humano mantém o crescimento e o desenvolvimento normal, melhora o processo gastrointestinal, favorece o vínculo mãe-filho, e ainda facilita o desenvolvimento emocional, cognitivo e do sistema nervoso (Calhoun et al., 2001).
O leite humano contém de 3 a 5% de lipídios, dentre os quais 98% são triacilglicerois (TAGs), sendo 88% de ácidos graxos (Yang et al. 2003). A gordura do leite humano é a principal fonte de energia para o recém-nascido (aproximadamente 50% das calorias totais), fonte de ácidos graxos essenciais, como os ácidos linoleico (C18:2 n-6) e linolênico (C18:3 n-3), e participa do transporte de vitaminas (A, D, E e K) e hormônios lipossolúveis (Lien,1994).
Embora o leite humano contenha pelo menos 170 diferentes estruturas de triacilglicerois, apenas 30 delas representam 70% do total da gordura do leite humano. O ácido palmítico (C16:0) na gordura do leite humano está na maior parte (53-70%) esterificado na posição sn-2 dos triacilglicerois, enquanto os ácidos graxos insaturados estão nas posições sn-1 e sn-3 (Xu, 2000). Em contrapartida, o ácido palmítico presente nos óleos vegetais, largamente utilizados para a produção de fórmulas infantis, são esterificados na posição sn-1 e sn-3 (Lien, 1994), sendo que a posição sn-2 é predominantemente ocupada pelos ácidos graxos insaturados (Small, 1991). A explicação para a esterificação preferencial do ácido palmítico na posição sn-2 no leite humano durante a síntese de triacilglicerol na glândula mamária ainda é incerta. Fórmulas artificiais contendo o ácido palmítico esterificado na posição sn-2 apresentaram melhor desempenho comparadas às que possuíam o ácido palmítico nas posições sn-1,3 (Carnielli et al., 1995). Diversos estudos ao longo das últimas duas décadas vêm demonstrando que o posicionamento central (sn-2) do principal ácido graxo saturado presente na gordura do leite humano promove sua melhor absorção, como também do cálcio, nos recém nascidos a termo e prematuros.
Apesar de todos os esforços em estimular o aleitamento materno, a urbanização e a falta de tempo reduziram o período de amamentação. Além disso, alguns recém-nascidos não são amamentados devido à baixa produção de leite, estado nutricional e condição de saúde desfavorável da lactante, ou até em função da morte da mãe durante ou após o parto. Consequentemente, existe a necessidade de fornecer meios alternativos de alimentação para aqueles recém-nascidos que não podem ser amamentados. Como a demanda por alternativas ao leite humano é contínua, um sucedâneo para o leite humano deve ser tão próximo quanto possível do original para atender às exigências nutritivas do crescimento infantil e substituir o leite materno nestes casos. Este sucedâneo deve estar o mais próximo possível das características do leite humano quantitativa e qualitativamente (Maduko & Akoh, 2007).
 
  1. ACIDOS GRAXOS DE CADEIA LONGA NO LEITE MATERNO
O leite humano é fonte de ácidos graxos poli-insaturados (PUFA), incluindo os ácidos linoleico e α-linolênico. Embora o organismo não os consiga sintetizar, estes ácidos graxos são componentes estruturais majoritários dos fospolipídios membranares, estando envolvidos na fluidez da membrana e no transporte iônico ao longo da membrana celular, e são precursores dos ácidos graxos de cadeia longa. O ácido α-linolênico é precursor do ácido eicosapentaenoico (EPA, C20:5, n-3) e do ácido docosahexaenoico (DHA, C22:6, n-3), enquanto o ácido linoleico é precursor do ácido araquidônico (ARA, C20:4, n-6) (Gorjão et al., 2009).
O lactente não tem a capacidade de sintetizar ácidos graxos de cadeia longa através de seus precursores ácido linoleico e ácido α-linolênico devido à sua imaturidade hepática, tendo sua necessidade suprida através da ingestão de leite materno (Silva et al., 2007). O leite materno apresenta três vezes mais ácido araquidônico e docosahexaenoico que o leite de vaca, sendo que o segundo é insuficiente para atender às necessidades do lactente. Os ácidos graxos de cadeia longa são especialmente imprescindíveis em prematuros com pouca reserva lipídica, pela limitada reserva calórica, pois parte destes ácidos graxos são mobilizados para atender suas necessidades quando o aporte exógeno é inadequado (Silva et al., 2007) devido a uma suplementação inadequada de micronutrientes essenciais nesse período. Desta forma, a função cerebral pode ser comprometida durante toda a vida (Hirayama et al., 2006).
Os ácidos graxos de cadeia longa são rapidamente absorvidos no cérebro durante o seu período de desenvolvimento, que compreende o último trimestre de gravidez até aproximadamente 2 anos de idade. A melhor forma de assegurar a oferta de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa para o lactente é através do leite materno. Recentemente, a comunidade científica tem se interessado de forma crescente por ácidos graxos de cadeia longa, especificamente pelo DHA, que tem ação funcional e estrutural no desenvolvimento infantil.
 
  1. ÁCIDOS GRAXOS DE CADEIA LONGA EM FÓRMULAS INFANTIS
A maior parte das fórmulas infantis tradicionais depende da bioconversão de ácido α-linolênico em DHA, porém em recém-nascidos essas taxas de conversão não são eficientes. Portanto, uma alternativa tem sido o uso do DHA diretamente na fórmula infantil (Hirayama et al., 2006).
Apesar dos recentes avanços nos processos tecnológicos, as fórmulas infantis ainda apresentam grandes diferenças na composição quando comparadas ao leite materno. Com o intuito de estreitar essa diferença, as fórmulas infantis estão sendo suplementadas com ácidos graxos de cadeia longa desde 2002 nos EUA. No Brasil, as fórmulas infantis começaram a ser adicionadas destes ácidos graxos a partir do início de 2008.
Durante a produção industrial da maioria das fórmulas infantis, parte da gordura do leite é substituída por uma mistura de óleos vegetais, adicionada para promover uma composição em ácidos graxos, principalmente ácido linoleico e α-linolênico, próxima à do leite materno. As matérias-primas componentes das fórmulas infantis são misturadas, pasteurizadas, homogeneizadas, concentradas e secas ou esterilizadas pelos fabricantes para assegurar que estes produtos tenham boa qualidade e longa vida de prateleira, podendo esses processos interferir no conteúdo de ácidos graxos de cadeia longa, uma vez que estes ácidos graxos são suscetíveis a eventuais processos de oxidação (Chavés Servin et al., 2009). Adicionalmente, a formação de ácidos graxos trans pode ser um indicativo de oxidação lipídica, pois as insaturações dos ácidos graxos durante os processos dependentes de tempo e temperatura podem ser rearranjadas em diferentes conformações (Rodriguez Alcalalá et al., 2007). Os óleos poli-insaturados, matérias-primas das fórmulas infantis, podem conter quantidades consideráveis de ácidos graxos trans, os quais, quando consumidos em excesso, são prejudiciais à saúde (Aued-Pimentel et al., 2009). Muitas fórmulas infantis à base de leite são suplementadas com ácidos graxos poli-insaturados, tais como o ácido araquidônico e o DHA.
A adição de ácidos graxos de cadeia longa às fórmulas infantis tem sido questionada do ponto de vista da qualidade oxidativa deste alimento, assim como a adição de ácido ascórbico e ferro – combinação com efeitos pró-oxidantes – pois podem aumentar sua susceptibilidade à oxidação lipídica, com a formação de compostos não voláteis que são prejudiciais à saúde (Romeu-Nadal et al., 2007). Estes efeitos podem ser críticos após as etapas de atomização durante a produção e também durante a reconstituição doméstica do leite em pó.
            O aumento do conteúdo de ácidos graxos de cadeia longa e a fortificação mineral paralela, bem como os tratamentos de secagem, como a atomização, e o período de estocagem, podem conduzir à deterioração oxidativa, com subsequente perda dos ácidos graxos essenciais, formação de ácidos graxos trans, liberação de compostos voláteis e pela formação de compostos não voláteis que são prejudiciais à saúde (Rodriguez Alcalalá et al., 2007). Esta perda nutricional pode ser crítica, comprometendo o desenvolvimento infantil e, em especial, o cerebral e o visual (Tanaka et al., 2009).
As melhorias no desenvolvimento de fórmulas infantis se deram paralelas aos avanços das técnicas analíticas que permitam determinação mais precisa de vários nutrientes e seus níveis no leite humano.
 
  1. Conclusões
     O leite humano é considerado a melhor alternativa para a alimentação de crianças nos seus primeiros 2 anos, porém existem ocasiões em que a amamentação não pode ser realizada. Nestes casos, é de extrema importância que as fórmulas infantis apresentem composição mais próxima possível do leite humano.
     A presença dos ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa no leite humano é de extrema importância para o desenvolvimento neurológico da criança. Atualmente as fórmulas infantis estão sendo suplementadas com DHA e ARA com o objetivo de suprir esta carência. Devido à susceptibilidade à oxidação desses ácidos graxos, mais estudos devem ser feitos quanto à qualidade desses lipídios após a obtenção da fórmula infantil.
 
  1. Referências Bibiliográficas
AUED-PIMENTEL, S.; KUS, M. M. M.; CARUSO, M. S. F.; KUMAGAI, E.; ZENEBON, O. Ácidos graxos trans em óleos vegetais refinados poli-insaturados comercializados no estado de São Paulo, Brasil. Ciência e Tecnologia de Alimentos, Campinas, v. 29, n. 3, p. 646-651, 2009.
CALHOUN, D.A.; LUNOE, M.; DU, Y.; CHRISTENSEN, R.D. Granulocyte colony-stimulating factor is present in human milk and its receptor is present in human fetal intestine. Pediatrics, v. 105, n. 1, e7, 2000.
CARNIELLI, V.P.; LUIJENDIJK, I.H.T.; VAN GOUDOEVER, J.B.; SUKERS, E.J.; BOERLAGE, A.A.; DEGENHART, H.J.; SAUER, P.J.J. Feeding premature newborn infants palmitic acid in amounts and stereoisomeric position similar to human milk: effects on fat and mineral balance. American Journal Clinical Nutrition, v.61, n.5, p.1037-1042, 1995.
CHÁVEZ-SERVÍN, J. L.; CASTRLLOTE, A. I.; MARTÍN, M.; CHIFRÉ, R.; LÓPEZ-SABATER, M. C. Stability during storage of LC-PUFA-supplemented infant formula containing single cell oil or egg yolk. Food Chemistry, v. 113, n. 2, p. 484-492, 2009.
GORJÃO, R., AZEVEDO-MARTINS, A. K., RODRIGUES, H. G., ABDULKADER, F., ARCISIO-MIRANDA, M., PROCOPIO, J., CURI, R. Comparative effects of DHA and EPA on cell function. Pharmacology & therapeutics, v.122p. 56-64. 2009.
HIRAYAMA, K. B.; SPERIDIÃO, P. G. L.; FAGUNDES-NETO, U. Ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa. The Electronic Journal of Pediatric, Gastroeneterology, Nutrition and Liver Diseases, São Paulo, v.
LIEN, E.L. The role of fatty acid composition and positional distribution in fat absorption in infants. Journal of Pediatric.v. 125, p. S62-S68, 1994
MADUKO, C.O.; AKOH, C.C.; PARK, Y.W. Enzymatic interesterification of tripalmitin with vegetable oil blends for formulation of caprine milk infant formula analogs. Journal Dairy Science v. 90, p. 594-601, 2007a.
RODRÍGUEZ-ALCALÁ, L. M.; GARCÍA-MARTÍNEZ, M. C.; CACHÓN, F.; MARMESAT, S.; ALONSO, L.; MÁRQUEZ-RUIZ, G.; FONTECHA, J. Changes in the lipid composition powdered infant formulas during long-term storage. Journal of Agriculture Food Chemistry, v. 55, n. 16, p. 6533-6538, 2007.
ROMEU-NADAL, M.; CHÁVES-SÉRVIN, J. L.; CASTELLOTE, A. I; RIVERO, M.; LÓPEZ-SABATERA, M. C. Oxidation stability of the lipid fraction in Milk powder formulas. Food Chemistry, v. 100, n. 2, p. 756-763, 2007.
SILVA, R.C., ESCOBEDO, J.P., QUINTAL, V.S., IBIDI, S.M., ALBUQUERQUE, E.M., GIOIELLI, L.A. Composição centesimal do leite humano e propriedades físico-químicas de sua gordura. Química Nova, v. 30, n. 7, p. 1535-1538, 2007b
SMALL, D.M. The effects of glyceride structure on absorption and metabolism. Annual Review Nutrition., v.11, p.413-434, 1991.
TANAKA, K.; KON, N.; OHKAWA, N.; YOSHIKAWA, N.; SHIMIZU, T. Does breastfeeding in the neonatal period influence the cognitive function of very-low-birth-weight infants at 5 years of age? Brain & Development, v. 31, n. 4, p. 288-293, 2009.
XU, X. Enzymatic production of structured lipids: process reactions and acyl migration. INFORM, v. 11, p. 1121-1129, 2000.
YANG T.K.; XU, X.B; HE, C.; LI, L.T. Lipase-catalyzed modification of lard to produce human milk fat substitutes. Food Chemistry, v. 80, n. 4, p. 473-481, 2003

 


+ ver todas as notícias
Filie-se

Veja as vantagens de ser associado da SBOG.


SBOG

Sociedade Brasileira de Óleos e Gordura

CNPJ: 73.974.073/0001-58
Universidade Federal de Santa Catarina

UFSC / CCA / CAL - Laboratório de Óleos e Gorduras
Rodovia Admar Gonzaga, nº 1.346 - Bairro Itacorubi
Florianópolis - SC - Brasil - CEP 88.034-001

SBOG